terça-feira, 18 de julho de 2017

confissões de uma homem suficientemente louco para viver com as feras part 2

O suicídio de um jovem rebelde romântico


Eu estava em meu apartamento sem água quente e com o aluguel um mês atrasado numa rua qualquer do subúrbio do Rio de Janeiro. Sentia-me completamente improdutivo e sem esperança. Eu era um jovem em busca de alguma experiência verdadeira, alguma ação. Já estava cansado de futilidades – pegar o ônibus no horário, bom dia pra qualquer pessoa, compras no supermercado. Fora, um tempo atrás, despejado do serviço militar por incapacidade física. Agora, já com vinte anos, fazia um curso de filosofia numa universidade local só para ter uma ocupação. Com exceção de alguns professores, eu já estava completamente entediado com tudo aquilo.

Alice era uma garota com quem eu mantinha contato e de vez em quando, geralmente quando eu ficava a maior parte do dia deprimido, ela aparecia e trazia bebida e cigarro e livros novos. Eu costumava ler alguns autores que não vem ao caso citar, mas ultimamente eu perdera o interesse – simplesmente eu não conseguia mais ler. Nietzsche era um caso.


Mais uma vez deprimido – ela disse.

Sim – eu disse.

O que foi dessa vez? – perguntou.

É só que a minha vida não faz sentido e eu não consigo imaginar nada pelo que valha a pena levantar todos os dias – respondi, meio irônico, meio verdadeiro. 

Você parece um adolescente espinhento e punk se achando um grande existencialista camusiano, mas que, na verdade, não passa de alguém normal e ordinário como todos os outros – ela me disse.

Não está ajudando – falei, já com um pouco de tédio.

               
Ela estava realmente certa. Minhas reflexões filosóficas sobre a existência não tinham nenhum embasamento. Mas eu não tinha um Deus, uma crença, não era comunista, não acreditava em nada. Camus disse que o suicídio é o único problema filosófico sério. Talvez ele esteja certo. 


Trouxe umas bebidas – ela disse, pegando uma garrafa de Heineken e, depois de tirar a tampinha com os dentes, me passou.

Obrigado – eu disse – isso vai ajudar. E dei uma longa golada.


Ficamos por ali afundados no sofá com a TV desligada e o cinzeiro no braço do sofá onde as cinzas mais caiam fora do que dentro, de modo que sujava todo o braço e, de tanto que aquilo se repetia, uma hora eu simplesmente desisti de limpar e deixei e só limpei o chão. Alice não fazia nenhuma faculdade e nem trabalhava e tinha 20 anos. Ela se considerava autodidata e lia muito os românticos alemães, a geração perdida e Charles bukowski, seu preferido, pejo jeito cru e visceral com que ele escrevia. Eu já tinha lido-o também e era um dos poucos que eu ainda suportava, uma vez que não exigia muito de mim. Éramos dois jovens sem esperança e decepcionados com a vida.


Ontem eu fui pra um bar – ela disse – e fiquei ouvindo a música e bebendo com os amigos e um cara me agarrou e me forçou para que eu o beijasse.

Esses tipos não são nem um pouco originais – eu falei – não possuem nenhuma criatividade e se acham viris demais pra qualquer coisa.

E você? – ela me perguntou

O que tem eu, querida? – perguntei, meio sem entender a pergunta.

Se acha o fodão aí – falou – melhor que todo mundo. Só porque você ler esses autores e as pessoas normais estão preocupadas demais com a moda e com o futuro e com fazer cursinhos técnicos. Você se acha superior porque faz uma faculdade e é inteligente.

Cara – eu falei – eu não vejo sentido nenhum no meu curso e não me acho nada inteligente.

Mas você se acha superior às pessoas porque elas estão tentando ganhar a vida com cursos tecnológicos e não entendem nada de literatura e filosofia – ela retrucou, com um sorriso.

Realmente – eu falei – essas pessoas me entediam e eu as desprezo.

           
Eu falava e falava e falava e não aguentava mais. Depois de um tempo, Alice foi embora e eu permaneci sozinho e vazio. A bebida tinha acabado. E olhei ao redor. Fui até a janela e avistei os carros e as pessoas andando preocupadas e falando ao celular e em casais e com seus bebes chorões e com seus filhos gordos pedindo sorvete e jovens com suas roupas de técnico andando apressados e eu percebi que não fazia parte daquilo. Tinha que encontrar um grupo, pessoas como eu. Sem esperanças. Um tipo de rebelde romântico anarquista. Ao mesmo tempo eu odiava pertencer a algum grupo, pois isso exigia responsabilidades e, ao contrário de Sartre, eu não estava nem aí pra isso. Decidi ir até o quarto. Abri a gaveta da escrivaninha e peguei-a. A salvação.


               Alice sabia. Dostoiévski sabia. Engatilhei e atravessei meu crânio com uma bala calibre 38. Cai débil e inútil no chão.    

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